Muitos já devem, como eu, ter recebido a famigerada apresentação, com fotos da miséria humana de populações africanas e cenas de negros e negras, jovens e adultos, em total abandono, secura, indignidade e necessidade, mostrando que o ser humano parece se ainda mais forte que sua própria capacidade de auto-destruição.
Mas a proposta da apresentação é, incrivelmente, outra. Usa o exemplo da indignidade de populações africanas para tentar convencer que, quem não está naquela situação, deve sentir-se feliz e abençoado, pois sua vida de alguma subsistência e conforto, poderia ser ainda pior.
Não clama por justiça, por indignação, mas sim por agradecimento e resignação. Nada mais reacionário. As Legendas das fotos revoltantes perguntam porque você não está contente com a sua vida, com a sua cama, com o seu chinelo, com a sua casa, nivelando pelo mais baixo nível de dignidade humana nossa relação com a felicidade.
Uma amiga da adolescência me encaminhou, com a seguinte pergunta:
Me perdoem se não devia repassar a vcs....
E eu penso onde estão as autoridades que mandam no mundo que não vêem isso??? E o que cabe a nós???
O autor da apresentação se justifica:
É uma tortura. Você até pode pensar: a pessoa que fez este e-mail não tem o que fazer. Eu sinto que tenho o que fazer sim. Eu tenho que fazer você entender que a sua vida é uma benção. Que a sua casa é a melhor do mundo. Que o seu trabalho e muito bom. Que as roupas que você usa são as melhores do mundo. Que a comida que voce come e a de melhor qualidade. Que a escola que você estuda ou estudou era tudo de bom. Que a sua familia é a melhor. Pare e reflita na sua vida agora antes de ver as imagens.
Eu posso parecer um cara chato, mas para mim esse e-mail fez a diferença.
Não se se fiquei mais indignado com a miséria da condição humana mostrada nas fotos, ou com as palavras do cidadão, que não assinou. Mas enviei a resposta à minha amiga
Está desculpada.
Mas quero opinar sobre isso.
Essa é uma típica argumentação reacionária e conservadora, nivelando por baixo o sofrimento humano. Ou seja: "Se há pessoas sofrendo mais que você, pare de reclamar e agradeça". Agradecer a quem e pelo que? A situação caótica que se encontra 1/3 da população mundial está retratada de forma superlativa nas fotos mostradas. O medo dessa situação é usado como ferramenta para "calar a boca" de quem ainda tem um mínimo de sentimento de solidariedade?. Assim agiu o fascismo italiano, o nazismo alemão e o movimento brasileiro "Deus, família e propriedade" contra as "ameaças" socialistas, apavorando a população com mentiras sobre comedores de crianças e "uma casa, várias famílias". O pior dessa apresentação é que a ameaça é verdadeira, são vidas humanas em decoposição ainda vivas, sendo usadas. As imagens de precariedade do povo africano são uma realidade fabricada propositalmente, afinal, a escravidão já nos provou que, em nome do dinheiro, vale qualquer desumanidade. A mensagem subliminar é a seguinte: "Gostarias de estar nessa situação? então agradece pelo que tem, que é muito perto disso, e te resigna com esse estado de coisas". Não falemos em autoridades aqui (onde estão?), pois sabemos que quem manda no mundo, inclusive nas autoridades, é o poder financeiro. Assim, o poder financeiro mantém diversas "ilhas de miséria", para justificar exatamente as migalhas de bem estar que propicia às populações mais favorecidas, fazendo parecer que, acesso a mínimas condições de alimentação, saúde e segurança, são uma dádiva, quase divina, e não um dever do Estado. Da mesma forma como o mercado necessita e incentiva o desemprego (desemprego estrutural), para manter o salário num nível miserável, colocando trabalhador contra trabalhador a lutar por espaço, o sistema precisa da miséria absoluta (e por isso a África é o que é, o nordeste é o que é), para justificar a mínima condição que oferece às populações melhores assistidas socialmente (classes baixa e média), pois também precisa delas para fabricar quase de graça a sua riqueza. É um sistema tão perverso quanto os algozes que o alimentam, mas as pessoas precisam começar a enxergar a realidade desse sistema. Assim, não se trata de lamentar a precariedade de vida de algumas populações e dar graças pelo bem-estar de nossa vidas (comparados com "aquilo"). Se trata de enxergar a fundo o que tudo isso significa, compreender as engrenagens da economia selvagem de mercado e conscientizar-se de que UM OUTRO MUNDO É POSSÍVEL.
Sergio Amorim
Não recebi resposta. Acho que choquei tanto quanto a apresentação, mas espero que tenha sido um choque positivo, uma reflexão inversa à que a aresentação propõe.
Recebo muitos, muitos emails. Tenho o (talvez mau) hábito de responder à maioria: elogio, critico, comento. Me toma um tempo que alguns dizem posto fora. Pra mim, é quase um vício fazer o contraponto. Opiniões, informações e debates, é o que se verá por aqui.
Quem sou eu
- Sergio Amorim
- Estudante de Sociologia. Servidor Público. Acredito na construção de uma sociedade justa e igualitária, construída pela permanente crítica ao sistema social atual e pela participação popular organizada na vida política.
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segunda-feira, 10 de março de 2008
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