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Estudante de Sociologia. Servidor Público. Acredito na construção de uma sociedade justa e igualitária, construída pela permanente crítica ao sistema social atual e pela participação popular organizada na vida política.

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

O 13º salário existe? Não existe? Vamos ver...

Essa surgiu esses dias. Recebi “ontem, por e-mail”, veio de um amigo de Porto Alegre, que mandou pra mim e outro amigo em comum, conterrâneo meu de Santos, SP:

Na íntegra:

O 13º Salário NUNCA Existiu...
Não tinha pensado nesta! Brilhante, de fato!
Os trabalhadores ingleses recebem os ordenados semanalmente!
Mas há sempre uma razão para as coisas e os trabalhadores ingleses, membros de uma sociedade mais amadurecida e crítica do que a nossa, não fazem nada por acaso!

Ora bem, cá está um exemplo aritmético simples que não exige altos conhecimentos de Matemática, mas talvez necessite de conhecimentos médios de desmontagem de retórica enganosa. 
Lembrando que o 13º no Brasil foi uma inovação de Getúlio Vargas, o “pai dos pobres” e que nenhum governo depois do dele mexeu nisso, nem mesmo o “governo dos trabalhadores”, fala-se agora que o governo do PT pode vir a não pagar aos funcionários públicos o 13º salário. Se o fizerem, é uma roubalheira sobre outra roubalheira.
Perguntarão porquê.
Respondo: Porque o 13º salário não existe.
O 13º salário é uma das mais escandalosas de todas as mentiras dos donos do poder, quer se intitulem “capitalistas” ou “socialistas”, e é justamente aquela que os trabalhadores mais acreditam. Eis aqui uma modesta demonstração aritmética de como foi fácil enganar os trabalhadores:
Suponhamos que você ganha R$ 700,00 por mês. Multiplicando-se esse salário por 12 meses, você recebe um total de R$ 8.400,00 por um ano de doze meses ( R$ 700 X 12 = R$ 8.400,00).
Em Dezembro, o generoso governo manda então pagar-lhe o conhecido 13º salário. R$ 8.400,00 (Salário anual) + R$ 700,00 (13º salário) = R$ 9.100 (Salário anual mais o 13º salário)
O trabalhador vai para casa todo feliz com o “governo dos trabalhadores” que mandou o patrão pagar o 13º.


Agora veja bem o que acontece quando o trabalhador se predispõe a fazer uma simples contas que aprendeu no Ensino Fundamental: Se o trabalhador recebe R$ 700,00 por mês e o mês tem quatro semanas, significa que ganha por semana R$ 175,00. (R$ 700,00/4 = R$ 175,00).
O ano tem 52 semanas. Se multiplicarmos R$ 175,00 (Salário semanal) por 52 (número de semanas anuais) o resultado será R$ 9.100,00. (R$ 175,00 x 52 = R$ 9.100.00). O resultado acima é o mesmo valor do Salário anual mais o 13º salário. Surpresa, surpresa? Onde está, portanto, o 13º Salário? A explicação é simples, embora os nossos conhecidos líderes nunca se tenham dado conta desse fato simples. A resposta é que o governo, que faz as leis, lhe rouba uma parte do salário durante todo o ano, pela simples razão de que há meses com 30 dias, outros com 31 e também meses com quatro ou cinco semanas (ainda assim, apesar de cinco semanas o governo só manda o patrão pagar quatro semanas) o salário é o mesmo tenha o mês 30 ou 31 dias, quatro ou cinco semanas.

No final do ano o generoso governo presenteia o trabalhador com um 13º salário, cujo dinheiro saiu do próprio bolso do trabalhador. Se o governo retirar o 13º salário dos trabalhadores da função pública, o roubo é duplo. Daí que, como palavra final para os trabalhadores inteligentes: não existe nenhum 13º salário. O governo apenas devolve e manda o patrão devolver o que sorrateiramente foi tirado do salário anual.
Conclusão: Os Trabalhadores recebem o que já trabalharam e não um adicional. 13º  NÃO É PRÊMIO, NEM GENTILEZA, NEM CONCESSÃO. É SIMPLES PAGAMENTO PELO TEMPO TRABALHADO NO ANO!

Não vivemos num mundo de alienados, e certamente essa descoberta espetacular da matemática política já teria vazado. Mas o furo da conta saltou aos olhos numa segunda leitura, e resolvi responder de bate pronto, construindo a argumentação junto com a resposta.
 
ESSA CONTA TÁ ERRADA!!!
Uma conclusão válida a partir de uma premissa falsa. O nome disso é FALÁCIA. A premissa falsa é o "mês de 4 semanas". Na verdade, um mês tem, em média, 4,33 semanas, ou 7 dias e meio. Acho que nesse ponto não há margem para discordâncias.
  
É claro que os meses não têm a mesma quantidade de dias, mas o salário é pago com base na média de dias, e não por "semana", como quis induzir a erro o cálculo e seu autor. Aliás, a confusão se dá exatamente em confrontar duas formas diferentes de calcular o salário: por mês - que tem quantidade diferentes de dias e tem que ser feito pela média; e por semana - que tem 7 dias sempre e o cálculo é direto.
O cálculo da falácia é feito com base em uma tradição do mês de 4 semanas, e quase ninguém percebe o erro, apesar de o "manifesto" se referir exatamente a isso. E o erro é o seguinte:

Com um mês de 4 semanas (dado errado, pois 4 semanas x 7 dias = 28 dias. Só fevereiro tem isso), e um ano de 52 semanas (52 semanas x 7 dias = 364 dias. Dado correto, apesar da diferença de um dia, ou 0,003%), ficamos com uma diferença de 29 dias, ou praticamente, um mês (28x12=336-365=29 dias), que no cálculo é transferida para o salário mensal (pois foi considerado um mês menor do que ele realmente o é).

Ou seja, a diferença que o texto alude, foi roubada pelo próprio cálculo equivocado, e não pelo "patrão". O que o patrão rouba do trabalhador não é o 13º salário, e sim a sua mais-valia, ou o que o trabalhador produz para além de remunerar sua própria subsistência, valor que fica integralmente com o empresário e que, raríssimas exceções, supera em muitas vezes o seu salário e benefícios.

Na realidade, esse é o típico e-mail que NÃO PASSA DE MAIS UMA FALÁCIA DA INTERNET. A farsa foi bem feita, certamente por um bom calculista, muito mal intencionado, porém.

Um abraço;

Sergio Amorim


Uma colega de trabalho, que também recebeu a pérola, me mandou desconfiada, perguntando o que eu achava, quando recebeu minha resposta, disse:

Grande Sérgio...
E sem contar que o texto fala que o Governo rouba.....como assim...não é o governo que paga os salários dos trabalhadores, salvo os do serviço público, os aposentados urbanos e rurais, ....
Não aguento essas pérolas que circulam na internet e só servem para explorar a desinformação das pessoas...
Vou te contar....


Meu amigo de Porto Alegre, disse em resposta:

Alemão! Olha a explicação do Sérgio sobre o 13º salário. Parece lógico... Eu nem me atrevo a questionar um contador. Obrigado Sérgio pelo esclarecimento!

Meu conterrâneo, também aquiesceu:

Nem eu! Tá doido sô, eu sou dezaiguiner, não matemático...rsssssssssssssss!!!
Acho que os anos de estudo da ciência contábil valeram, finalmente, hehehe!

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

OBA! Bolsa Vagabundagem

Recebi do meu amigo paulista, micro-empresário. Sou chato com o que me vem pela internet, e procuro conferir a veracidade de tudo, e ele sabe disso.

O texto trazia um ataque veemente e quase irracional aos programas sociais do governo, com cálculos quase convincentes de que esse tipo de programa incentiva a vagabundagem dos beneficiários. Chega a citar um caso “concreto”, de um porteiro que largou seu emprego para ficar só com os benefícios, a "exemplo de seus cunhados". Tem gente que acredita, e não é pouca. Ele me escreveu dizendo:

Serginho você que gosta de confirmar se as coisas são verídicas veja o e-mail abaixo veja se e verdade depois você me fala.

Aqui, a prosopopéia que ele me enviou, na íntegra:


---------- Mensagem encaminhada ----------
INCENTIVO À VAGABUNDAGEM - ZELADOR QUE PEDIU PARA SER DEMITIDO


O zelador de 1 prédio em Natal/RN , pediu à administração do condomínio onde trabalhava que o demitissem.


Contou o motivo; tenho dois cunhados desempregados, aqui mesmo em Natal, e que, por conta da Bolsa Escola, Cartão Cidadão, Cartão Alimentação, Vale Gás, Transporte Gratuito, Vale-Refeição (acreditem - Vale-refeição) e demais benefícios do nosso governo, dadas a título de esmola, vivem melhor que ele.


Aí paramos e fomos fazer umas continhas:
1. Bolsa escola - R$ 175 para cada filho que freqüente as aulas (2 filhos): R$ 350,00
2. Cartão cidadão (cujo intuito é restituir a cidadania): R$350,00
3. Vale gás (um por mês): R$ 70,00*
4. Transporte (calculamos 4 passagens diárias, 20 dias, na média) R$ 8,00 x 20 dias:R$ 160,00*
5. Vale refeição (um por dia) R$ 3,50/dia x 30 dias x 4 pessoas : R$ 420,00*
Total em dinheiro = R$ 700,00
Total em serviços* = R$ 650,00
Total mensal = R$ 1.350,00

O salário do zelador acrescido de horas extras e tudo mais girava em torno de R$ 830,00/mês. Tudo isso é o estabelecido pela LEI No 10.836, de 09 DE JANEIRO DE 2004.
Duvida?, então consulte: _
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2004-2006/2004/Lei/L10.836.htm


Como o zelador tem três filhos em idade escolar, para ele é vantajoso ficar desempregado e ter esses benefícios. Seu salário desemprego irá girar em torno de R $ 1.525,00, quase o dobro do que ganha trabalhando.


Como diria o Boris Casoy (expurgado da TV por se opor ao Lula, agora na TV BANDEIRANTES): 'ISTO É UMAVERGONHA!'.


Sabe quem paga por isso? 'NÓS', os 'OTÁRIOS'. Porque você acha que o Nordeste em peso votou no Lula?


PORTANTO MEUS AMIGOS: Trabalhem duro porque milhões de pessoas que vivem do Fome-Zero e do Bolsa-Família, sem trabalhar, dependem de você.


Depois de uma rápida pesquisa, respondi:




Amigo
Gostei disso, hehehe, virei teu "assessor para mentiras de internet postadas pela nossa classe média conservadora e individualista, que não tem mais nada pra fazer". Cargo importante, né?


Então, segue abaixo a resposta a esse ataque à ainda pobre política de benefícios sociais do governo. Não é problema ser contra, mas se vai fazer a crítica, que pelo menos tentasse se basear na verdade e nos fatos. Fiz uma avaliação superficial dos benefícios sociais do governo, que requer uma avaliação mais profunda e técnica, embora em termos gerais seja válida para um contraponto inicial.



O valor real dos benefícios que poderiam ser percebidos pelo anônimo zelador da história seriam, forçando muito e, no máximo, da ordem de R$ 229,50, fazendo as contas certinho. Analisemos os valores da conta.


Bolsa Escola
Esse programa não existe mais para novos proponentes, Seus beneficiários foram transferidos para o cadastro único do Bolsa Família que agregou uma série de benefícios sociais num só, embora seus poucos beneficiários remanescentes ainda recebam o benefício, como extraordinário, até que cesses as condições de recebimento (idade dos filhos, em especial).
Mesmo quando ainda existia, o Bolsa Escola tinha o valor de R$ 15,00 por criança matriculada, limitado ao máximo de 3 crianlas. Portanto R$ 45,00, e não os R$ 350, falsamente noticiados.
http://www.mds.gov.br/bolsafamilia/fc_beneficiario/programas-remanescentes/os-programas-bolsa-escola-bolsa-alimentacao-cartao-alimentacao-e-auxilio-gas-nao-existem-mais
http://www.mundodastribos.com/bolsa-escola-como-receber-o-bolsa-escola.html


 Bolsa Família
Analisando apenas a legislação (lei 10.836) que veio anexa à notícia do anônimo zelador, temos que o benefício Bolsa Família, se dá de três formas:
1. Um benefício básico, no valor de R$ 58,00 por família, para famílias com renda per-capita de até R$ 60,00.
2. Um benefício variável, para famílias com gestantes e crianças até 12 anos ou adolescentes até 15 anos, no valor de R$ 18,00. Podem ser pagos no máximo três benefícios.
3. Outro benefício variável, para famílias com adolescentes até 17 anos, no valor de R$ 30,00, podendo ser pagos no máximo dois benefícios.
A legislação não refere nenhum outro valor, mas indica que esses benefícios, que são parte integrante do programa Bolsa Família, substituem os antigos programas federais conhecidos como Programas Bolsa Escola, Bolsa Alimentação, PNAA (programa nacional de alimentação) e Auxílio-Gás.




Cartão Cidadão
Isso não é um benefício. É um meio de pagamento. Com esse cartão, o cidadão pode ter acesso aos seus saldos de FGTS, PIS e, se tiver direito receber os benefícios de programas sociais, como bolsa família e bolsa educação, além de rendimentos do PIS, seguro-desemprego e abono salarial. Não gera nenhum outro direito, como os fctícios R$ 300,00 noticiados.
http://www.caixa.gov.br/fgts/cartao_cidadao.asp



Vale-gás
Não existe mais, pois foi incorporado pelo Bolsa-Família. Mesmo quando existia, seu valor era de R$ 25 a cada 2 meses, ou R$ 7,50 por mês, para famílias com renda mensal inferior a meio (?) salário mínimo, ao contrário dos R$ 70,00 falsamente divulgados.
ttp://www2.correioweb.com.br/cw/2002-01-28/mat_30131.htm


Transporte
Esse benefício também não existe. Não encontrei nenhuma referência a nenhum programa governamental, em nenhuma esfera de governo, com relação a auxílio desse porte, exceto a regulamentação que obriga o empregador a fornecer a seus empregados os meios necessários de deslocamento para o local de trabalho, além de legislações esparsas concedendo passe livre a trabalhadores desempregados (mais do que justo), mas que na prática não estão em funcionamento em nenhum local que eu tenha notícia. Se alguém souber de algum auxílio nesse sentido, avise seus amigos. Pode ser que algum deles esteja desempregado, e procurar emprego sem ter dinheiro para a cara passagem não deve ser fácil.


Vale Refeição
Também aqui não encontrei nenhum programa nesse sentido. Várias cidades (em especial capitais) implementaram Restaurantes Populares, onde se faz uma boa refeição por R$ 1,00, com subsídios governamentais do programa fome-zero. Mas auxílio alimentação mesmo, somente por meio da relação de emprego, que eu tenha notícia.
http://www.mds.gov.br/programas/seguranca-alimentar-e-nutricional-san/restaurante-popular


 Programas Sociais
O Governo federal possui diversos programas na área social. Além do Fome Zero, cujo carro chefe é o Bolsa Fámília, possui diversos outros programas, como o programa de segurança alimentar, de erradicação do trabalho infantil, Farmácia Popular, Brasil Alfabetizado e Pró-Uni, entre outros. Portanto, a maioria dos programas do governo na área social, não é de entrega de dinheiro, mas sim de facilitação de acesso aos meios de desenvolvimento próprio do cidadão em situação de vulnerabilidade social.
http://www.presidencia.gov.br/principais_programas/cidadania/


 









Conclusão
Portanto concluímos que o pobre e anônimo (e certamente fictício) zelador nordestino foi enganado pela má fé das pessoas que lhe deram as informações, foi prejudicado, perdeu sem digno emprego (que embora não pagasse bem, lhe trazia a dignidade de seu sustento), e foi ludibriado com a falácia de que no Brasil, é melhor não trabalhar, pois o governo sustenta vagabundos. E não é isso que os programas sociais fazem. O que eles fazem é trazer um mínimo de dignidade àquelas famílias que vivem abaixo das condições humanas de sobrevivência, dignidade e auto-estima. Um programa sério, valorizado mundo afora, que só um governo com viés mais popular e com coragem de enfrentar críticas infundadas com essa que recebi, seria capaz de consolidar.

A conta certa
Para decidir de forma inteligente sobre o abandono de seu digno emprego para ser "sustentado" pelo Estado, mesmo considerando que ele já estivesse inscrito em todos os programas remanescentes (o que pelo seu salário não seria possível, em tese) e tivesse, para ter direito ao máximo de benefícios, 3 filhos menores de 15 anos e dois filhos entre 15 e 17 anos (que família, hein?), o zelador deveria ter pedido a ajuda de seus verdadeiros amigos e ter feito a seguinte conta:


Bolsa Família:
Benefício básico: R$ 58,00
Benefício variável 1 (filhos menores de 15 anos): 3x R$ 18 = R$ 54,00
Benefício variável 2 (filhos adolescentes entre 15 e 17 anos): 2x R$ 30,00 = R$ 60,00
Cartão Cidadão: Não é benefício, como já explicado: R$ 0,00
Bolsa Escola (se ele já estivesse inscrito): R$ 45,00
Vale gás (também se ele já estivesse inscrito): R$ 12,50
Vale transporte: o zelador teria que ter vínculo empregatício: R$ 0,00
Vale refeição: Também aqui, só o vínculo de emprego dá direito: R$ 0,00
Total: R$ 229,50

Eu, pessoalmente, não trocaria nenhum emprego digno, mesmo que recebendo salário mínimo, por essa "bolsa", e agora fiquei na dúvida sobre quem são os "otários" que o denunciante acusa.

Um abraço a todos e a todas, e boa reflexão;

Encaminhei essa resposta para ele, a para todos que me enviaram o tal "estudo" sobre os programas sociais. Ou ficou inquestionável, o que duvido, u ninguém leu. Só recebi uma resposta, um agardecimento pelas informações, de uma colega de trabalho de Porto Alegre.

quinta-feira, 26 de março de 2009

O Preconceito e a Política de Cotas



Uma sentença da Justiça do Trabalho, que condenou um empregador a pagar indenização a uma faxineira negra, por racismo no trabalho, foi o início desse debate. Encaminhei a notícia, ocorrida na minha cidade, na respectiva comunidade do Orkut.
“Muito me admira que ainda se tenha que decidir litígios por conta dessa espécie de comportamento retrógrado, ultrapassado, desrespeitoso, que atinge a dignidade da pessoa”, assinalou o juiz presidente da Quinta Turma, ministro Brito Pereira. Na inicial, a trabalhadora informa ter sido sistematicamente perseguida por seu chefe, que sempre se dirigia a ela “chamando-a de ‘negra’ com ar de deboche”. “Essa negra, para vir trabalhar, está doente, mas para pular carnaval está boa”, dizia o chefete. Quando era mandada para outro setor, o chefe informava aos demais funcionários: “vem uma negra trabalhar contigo”. Os depoimentos colhidos na fase de instrução do processo delinearam um quadro inquestionável para todas as instâncias pelas quais o processo tramitou.
O julgamento ocorreu na véspera do Dia da Consciência Negra, comemorado no dia 20, e, homenagem a todos os negros e negras na data da morte do líder do Quilombo dos Palmares Zumbi, Lembrou o ministro-relator do processo.


Alguns conhecidos da cidade, me escreveram questionando se também não era racismo chamar alguém de “alemão”, ou de “gringo”.


Respondi:
Infelizmente nossos antepassados criaram o estigma, e nossa sociedade atribuiu o peso depreciativo à palavra negro, de acordo com a entonação e o contexto. Num ambiente de trabalho, principalmente quando há relações de poder (chefe/subalterno) deve ser ter cuidado redobrado, não há margem para interpretação nem brincadeiras nestes casos, o profissionalismo deve imperar.


Outra conhecida da cidade, questionou sobre igualdade: Porque chamar um negro de “negro” é racismo, se chamar um branco de “branco” não é? Não somo todos iguais, apesar da cor da pele?




Escrevi o que mais rápido me ocorreu:
O racismo se esconde exatamente na tentativa de dizer que todos somos iguais, quando não o somos, nem nossa história, nem nossas oportunidades.
Por isso, é sim racismo depreciar um cidadão negro, trazendo à tona de uma declaração qualquer, a importância da cor de sua pele, como o era quando, à pouco mais de cem anos, um cidadão podia ir até a venda da esquina, apossar-se de um ser humano (desde que negro), obrigá-lo legalmente a trabalhar de graça, espancá-lo em caso de desobediência e até tirar-lhe a vida, caso assim o desejasse, pois era sua propriedade.
Não dá para fazer essa discussão de forma atropelada, sem uma contextualização história. Por isso, segue um extrato de avaliação, acerca do assunto, para posicionar o debate:
... A desigualdade racial no Brasil tem fortes raízes históricas e esta realidade não será alterada significativamente sem a aplicação de políticas públicas específicas. A Constituição de 1891 facilitou a reprodução do racismo ao decretar uma igualdade puramente formal entre todos os cidadãos. A população negra acabava de ser colocada em uma situação de completa exclusão em termos de acesso à terra, à instrução e ao mercado de trabalho para competir com os brancos diante de uma nova realidade econômica que se instalava no país. Enquanto se dizia que todos eram iguais na letra da lei, várias políticas de incentivo e apoio diferenciado, que hoje podem ser lidas como ações afirmativas, foram aplicadas para estimular a imigração de europeus para o Brasil.
Esse mesmo racismo estatal foi reproduzido e intensificado na sociedade brasileira ao longo de todo o século vinte. Uma série de dados oficiais sistematizados pelo IPEA no ano 2001 resume o padrão brasileiro de desigualdade racial: por 4 gerações ininterruptas, pretos e pardos têm contado com menos escolaridade, menos salário, menos acesso à saúde, menor índice de emprego, piores condições de moradia, quando contrastados com os brancos e asiáticos. ...
Fonte:http://www.csd.org.br/csd/index.php?option=content&task=view&id=1




A mesma conhecida, voltou a questionar, inconformada:
Sempre chamei um ou outro amigo de negrão, e nunca fui acusada por ele de racismo.


Respondi:
Procure "preconceito" no dicionário. Não é chamar alguém de qualquer coisa que determina o que é preconceito ou discriminação. A forma, o contexto, o que está por traz do que se disse, é o que magoa, é o que é ilegal. E quando um superior hierárquico diz para seus comandados coisas como as que lemos na sentença, é claro que há conotação d epreconceito por conta da cor da pele. O racismo e o preconceito se escondem tão bem, e têm mil desculpas, que alguns não enxergam, ou o ocultam sob o manto da “igualdade”, como se fôssemos de fato todos iguais. Não somos. Somos todos diferentes, pensamos diferente, agimos diferente, fomos criados diferente e temos matrizes diferentes. E nada disso pode autorizar quem quer que seja de fazer um conceito prévio do que somos a partir de nossas diferenças, da cor da nossa pele, de nossa origem etimológica, de nossa forma de pensar. Enquanto não aprendermos a respeitar e aceitar nossas diferenças (de verdade, sem menosprezar este ou aquele diferente), estaremos fadados a tropeçar no preconceito e na discriminação.


Uma amiga, da faculdade, ajudou:
Fazer qualquer avaliação de caráter, competência, etc, com referência na aparência física, na etnia, na escolaridade, etc, é preconceito e discriminação. Eu chamo muitos amigos de alemão, gordo, negão. O problema não é esse. A questão é a associação desses vocativos com algum qualitativo negativo da pessoa. Ninguém sai por aí chamando ninguém de negão, gordo, etc, se não conhece a pessoa, se já não tem uma autorização tácita para fazê-lo.


E eu tentei complementar:
Chamar uma pessoa de "negão" (se a pessoa aceita bem o vocativo, se é teu conhecido) não é racismo, e inclusive pode até ser atributo de intimidade, de amizade;
Chamar uma pessoa de "burro", também não é racismo, seria no máximo injúria;
Chamar uma pessoa de "negão burro", associando à etnia a característica injuriosa, aí sim, É RACISMO!


Uma das pérolas do debate, veio assim:
"a sociedade é muito ignorante e muitos negros foram fracos por c deixarem dominar.... mas enfim...."



Tentei trazer à luz, meio indignado, alguns fatos históricos:
Fracos? Se deixaram dominar? Que bom que vivemos 120 anos além dos dias de escravatura. Dias em que nossos irmãos negros, vivendo pacificamente em suas tribos e comunidades, eram capturados brutalmente e afastados de suas famílias na costa africana por portugueses ou outros europeus, atirados nos porões das galés, algemados pelo pescoço e membros e escondidos de forma desumana abaixo das gaiolas de galinhas d´angola, que despejavam suas necessidades por 40 dias em suas cabeças (não esqueçamos que já era proibido o tráfico desde 1850), com pouca comida e água e muitos ratos e doenças. Os que sobrevivam a este suplício pelo atlântico eram condenados, sem ter cometido qualquer crime, a trabalhos forçados em troca da própria sobrevivência, e sob a vigilância eterna de jagunços sem alma, nas fazendas dos coronéis do século 19, ou nas minas de ouro, diamante ou outro minério precioso que a corôa extorquia das terras brasileiras para a luxúria da corte. Quando ousavam se rebelar, nossos irmãos negros, ou estavam condenados à viver ermos nas florestas até a morte, ou eram capturados covardemente e chicoteados, também até a morte, pois ousaram gritar por liberdade.
Após a lei àurea, continuaram escravos (livres) do sistema, sem direito à estudo, profissão, ofício, propriedade ou mesmo dignidade humana, por mais de 80 anos, vagando em sua maioria pelos esgotos da sociedade hipócrita que os libertou, mas esqueceu de lhes outorgar direitos e cidadania.
E ousamos dizer que "muitos negros foram fracos por c deixarem dominar"? Falta informação para avaliar o contexto histórico em que vivemos.


Após esse desabafo, vieram algumas palavras de apoio, e de indignação com a desumanidade e a discriminação relativamente aos escravos e aos negros. Eu me encorajei e continuei no mesmo tom, agora tocando de fato na ferida das cotas raciais, apesar de achar mais correto chamá-las de cotas étnicas:
Sim, a história é desumana para com nossos irmão negros.
A discriminação está arraigada em nossas entranhas, e temos o dever moral de lutar contra ela, tanto a que está dentro de nós mesmos quanto a que se descortina no dia-a-dia, nas estatísticas. Afora as exceções, que só confirmam a regra, os negros recebem menores salários, são minoria esmagadora nas universidades, no serviço público, nos cargos de chefia, na política. Por isso, tenho certeza que devemos reparações aos nossos irmãos negros, descendentes daqueles que nunca tiveram oportunidades, que sempre foram deixados de lado na hora da distribuição das riquezas da terra, simplesmente por serem negros. Por isso defendo os territórios quilombolas, as cotas raciais nas universidades publicas (para arrepio das classes dominantes) e no serviço público, como forma de recompensar os séculos de desumanidade imprimidos à grande maioria dos nossos irmão negros. Está na hora de devolver-lhes as oportunidades que sempre lhes foram roubadas, como forma de compensação daquilo que sofreram durante a construção da nação brasileira.




Entrou no debate um morador da cidade, que não concordou com as cotas:
Longe de querer polemizar, mas acho as cotas universitárias para pessoas negras fora de questão. No momento em que eu estou dando uma cota pela cor da pele de alguém, tbm estou afirmando de que ela não é capaz. Se as cotas fossem para classes sociais desfavorecidas, aí ainda dá pra pensar.
Mas se eu coloco dinheiro na minha formação profissional, pq uma pessoa de pele negra não pode? Pq o bisavô foi escravo? Acho que não é por aí.


Essa fala contraditória merecia uma resposta. Tentei argumentar:
Acho que te contradissestes. Se a cota pela cor da pele, na tua opinião, é uma afirmação de que esta pessoa não tem capacidade, a cota pela condição social não afirma a mesma coisa? Porque aceitas uma afirmação de incapacidade, e não aceitas a outra?
A política de cotas é uma política de inclusão, uma política afirmativa. Tratar os iguais de forma igual, e os diferentes na medida de suas diferenças. A justiça em seu mais belo conceito. Se os nossos bisavós tivessem sido escravizados pela sociedade (o que não é pouca coisa), privados de liberdade, de renda, de dignidade, de poder acumular riqueza, de ter propriedade, acho que esta mesma sociedade, no futuro (hoje), tem a responsabilidade de, reconhecido o equívoco, reparar este imenso dano, privilegiando hoje os descendentes daqueles que foram desprivilegiados ontem. Ou será que não era um privilégio ser, simplesmente, branco na época da escravidão. OU será que não somos privilegiados, como brancos, com a oportunidade de nossos bisavós terem podido frequentar a escola, acumular patrimônio, ter salário, etc...?
Disseste “Mas se eu coloco dinheiro na minha formação profissional, pq uma pessoa de pele negra não pode?" Neste caso não tem relação com a política de cotas, pois as cotas universitárias são para ingresso na universidade pública, que é gratuita, ou para acesso ao Pró-uni, que também é com recursos públicos.




Uma conhecida da cidade trouxe a clássica simplificação:
Não precisamos de cotas raciais. Bastam cotas sociais, pois o problema para entrar na universidade não é a cor da pele, mas simplesmente a capacidade financeira.


Eu fiz uma análise simplista também:
Na nossa sociedade racista e preconceituosa, onde o maior crime é tentar sempre escamotear esta condição, num jogo dissimulado, não é raro encontrarmos situações onde, em igualdade de condições, jovens são preteridos na busca de emprego ou de um trabalho temporário, pela cor da sua pele, em favorecimento a outro jovem mais “clarinho”, numa atitude cruel e silenciosa de pessoas que ainda vêem perigo ou ameaça num negro ou numa negra, por sua possível origem, transformados em cidadãos ainda estigmatizados em nossa sociedade.
Nessa situação, que infelizmente ainda é uma realidade, não temos apenas a condição social ou de falta de recursos como condicionante para a falta de acesso a um bom cursinho pré-vestibular, por exemplo, que melhoraria as chances de ingresso numa universidade pública. A falta de condições de acesso a esses meios, por conta da cor da pele, é sim uma realidade.
Por isso, até que essa realidade não mais exista, ou até que tenhamos vagas para todos os cidadãos na universidade pública, defendo os dois tipos de acesso privilegiado à universidade púbica: Cotas Raciais e Sociais. Na primeira, o aluno auto declarado negro concorre de forma diferenciada, por esta condição. Na segunda, o aluno que comprove insuficiência financeira, concorre de forma diferenciada, por esta condição.
Na UFRGS, por exemplo 10% das vagas são de concorrência exclusiva para os auto declarados negros. Outros 20% das vagas são para concorrência exclusiva para os que comprovem carência financeira. Há ainda um pequeno número limitado de vagas, em certos cursos, para índios. Os demais praticamente 70% das vagas são para concorrência universal. Enfim, há as duas cotas (racial e social), que não se excluem. Pelo contrário, se complementam. Mas ninguém é obrigado a escolher concorrer por elas. Qualquer cidadão, que não se ache digno delas, pode de inscrever nas vagas de concorrência universal, seja pobre, ou seja negro. Ou seja os dois.


Teve também quem, na discussão, viesse com velho discurso de que:
...daqui a pouco, teremos cotas para negros em tudo... até no serviço público!




Ao que eu respondi:
No serviço público, somente há cotas, por determinação legal, para pessoas portadores de deficiência, que variam de 5 a 20%, conforme o edital. O que está corretíssimo, como instrumento de inclusão social.
Como essa, a política de cotas é uma política de inclusão, uma política afirmativa. Tratar os iguais de forma igual, e os diferentes na medida de suas diferenças. A justiça em seu mais belo conceito. Se os nossos bisavós tivessem sido escravizados pela sociedade (o que não é pouca coisa), privados de liberdade, de renda, de dignidade, de poder acumular riqueza, de ter propriedade, acho que esta mes
ma sociedade, no futuro (hoje), tem a responsabilidade de, reconhecido o equívoco, reparar este imenso dano, privilegiando hoje os descendentes daqueles que foram desprivilegiados ontem. Ou será que não era um privilégio ser, simplesmente, branco na época da escravidão. Ou será que não somos privilegiados, como brancos, com a oportunidade de nossos bisavós terem podido frequentar a escola, acumular patrimônio, ter salário, etc...?"


O debate, aqui, se cristalizou, e passou a ser quase que somente entre eu aquele morador da cidade, meu conhecido:
Era mesmo um privilégio ser branco na época da escravidão. A história prova isso. Mas as pessoas só vão vencer o preconceito se começarem a se tratar em iguais condições sempre. De que adianta as eras mudarem se as pessoas continuarem se discriminando? Eu não disse que o preconceito não existe. Mas cotas não resolvem nada, só reforçam diferenças. Isso só pode ser mudado se as pessoas começarem a ver o negro como uma pessoa como todas as outras. não é uma questão de aceitar a diferença. É uma questão de não vê-la mais.

 Eu respondi:
As cotas tentam exatamente isso: igualar as condições de ingresso e acesso à universidade pública para cidadão com desiguais condições de acesso. Quem pode menos (pobres, negros, e negros pobres), tem privilégio sobre quem pode mais (ricos, brancos e brancos ricos). Isso é tentar tratar com igualdade os desiguais. Isso é justiça. O que não podemos tolerar é a discriminação negativa, que diminui uma pessoa pela sua condição. O sistema atual de acesso à universidade tenta ser o menos parcial possível, mas não contempla as diferenças sociais de acesso aos meios (estudo, livros, bons professores, tempo e ambiente para estudar, etc) das várias camadas sociais. As cotas vêm, não para desigualar essa acesso, mas exatamente para exercer o papel contrário: privilegiar Os socialmente desprivilegiados. E dizer que a pessoa negra não está neste contexto, é mascarar sinicamente a realidade.


Sim, cotas resolvem (raciais e sociais) para aqueles que a vida toda sofreram com a discriminação. Resolve para aqueles que estão na favela, no sertão, na roça, porque o bisavô foi escravo, o avô não foi pra escola, o pai foi criado aos tapas e ele, negro e pobre, tenta entender como ele foi para ali. E não estamos falando de menos do que 70% da população brasileira, que vive em situação análoga de precariedade e falta de oportunidade. Eu torço para que as cotas raciais não sejam mais necessárias daqui a duas, três gerações. Mas sem elas, o teu sonho (e meu também) de ver negros, índios, brancos, japoneses e pardos, disputando uma vaga na universidade pública, em igualdades reais de condições, não será realidade tão cedo. Até lá, privilegiar os desprivilegiados, é mais do que fazer justiça: É projetar a igualdade para um futuro menos distante.


Veio mais uma manifestação contrária:
Querem uma sociedade igualitária, mas dão privilégios a quem é descendente de escravo?
Mas peralá, então eu não mereço nenhuma cota pq eu sou branco? Que pena que meu bisavô não foi escravo. Ah, mesmo que ele fosse, ele é branco. Então nada de cotas pra mim. Muiiiito justo. Aham.

 Aqui, acho que não me contive:
Acho lamentável alguém se sentir prejudicado porque não estar no rol daqueles que a política de cotas tenta alcançar. É incrível alguém lamentar o fato de não ter tido um bisavô que foi escravo, subjugado, torturado no pelourinho, caçado se fugitivo, tratado em condições sub-humanas, etc, pois assim poderia ter o privilégio das cotas raciais. Um argumento revanchista e individualista, pra dizer o mínimo.
Um erro comum esse: Reivindicar uma igualdade onde ela não existe. Ser descendente de escravo neste país é sim uma condição de inferioridade social. E esta inferioridade histórica (não falo de inferioridade humana, mas de condições sociais, que se agravam pela cor da pele, como já tentei exemplificar) precisa ser reparada, e as cotas raciais possuem este papel. Não podemos tapar o sol com a peneira, e fingir que, passada a escravidão, tudo ficou “igual”. Os escravos, libertos, foram atirados à margem da sociedade e continuaram sem direito a nada (trabalho, saúde, educação, etc...) Ser branco em nosso país, escravocrata há até pouco mais de uma dezena de décadas atrás, infelizmente ainda é um privilégio. E quero esse privilégio para todos os brasileiros. O meu privilégio, nesta sociedade racista e preconceituosa, é ser branco e ter tido um bisavô, um avô e um pai que puderam estudar, trabalhar e garantir seu sustento digno, acumular patrimônio (quase nada, é verdade, mas poderiam) e educar seus descendentes a contento. E o mínimo que posso fazer, como privilegiado dessa sociedade, é apoiar as cotas raciais, por uma questão de justiça.


Sobre a coisa do “escravo branco“, eu afirmei que não tinha conhecimento da existência de escravos brancos, exceto em alguma novela. Abro um parêntese, pois a questão merece:
Ele disse: O quê??? Exitiram escravos brancos, sim! O que EU LAMENTO é que vc não tenha conhecimento disso.
Eu disse: Na grécia antiga, talvez. Mas nem lá a escravidão foi tão cruel, pois era uma penalidade (por dívida, anexação de reinos, etc). Ninguém nascia escravo. Que eu tenha conhecimento (desculpe minha obtusidade, pois não sou da área de história), fora os mestiços já no final do século XVIII, só os negros, em várias nações escravocratas, nasciam, vivam e morriam, como escravos, uma vida miserável e desumana.


Sobre a coisa de que parcela social precisa de tratamento diferenciado, também vale um parêntese:
Ele disse: Uma gestante precisa de tratamento diferenciado. Um idoso precisa. Um portador de necessidades precisa. Um negro precisa? E os japoneses? E os índios? E os brancos?

Eu disse: Todas as gestantes, deficientes, idosos, precisam de tratamento diferenciado, em certas ocasiões (não sempre). Alguns negros, a maioria dos índios, alguns brancos, sim, também precisam de tratamento diferenciado, em certos momentos. Está na Constituição de forma implícita no art, 5º, em qualquer livro de doutrina jurídica que tente explicar os direitos sociais ali inscritos e em diversos artigos da carta magna que determinam diversos tratamentos diferenciados, conforme a condição social, étnica, religiosa.

Acho que a coisa de aceitar a diferença pegou. E veio uma manifestação assim:
Não é uma questão de aceitar a diferença. É uma questão de não vê-la mais.


Respondi:
O pior cego, é aquele que não quer ver. Não dá pra não enxergar a diferença, pois ela está aí, na nossa cara. Não querer enxergá-la é o que causa sua não aceitação. Não aceitá-la, é o que causa não querer repará-la. Não repará-la, é o que causará sua continuidade, e a insistência de muita gente em continuar não querendo ver, inconscientemente é para não precisar aceitar e não ter o ônus de reparar.


Uma confusão comum, sobre igualdade e preconceito, veio para o debate:
“Mas as pessoas só vão vencer o preconceito se começarem a se tratar em iguais condições sempre”




Eu tentei clarear:
Aqui há um equívoco clássico. Tratar as pessoas de forma diferenciada não é um preconceito. Nossa sociedade está repleta de tratamentos diferenciados. Idosos, gestantes e pessoas portadores de deficiências são tratados, com muita normalidade e justiça, de forma diferenciada, em qualquer repartição pública, atendimento privado, escolas, hospitais, etc...Um do povo, como eu e você, não temos os mesmos direitos que um magistrado, um diplomata. Há cotas legais para mulheres nas listas eleitorais dos partidos políticos, para pessoas portadores de deficiência nos concursos públicos, entre outras. Tudo isso são ações sociais legítimas a fim de equilibrar relações naturalmente desequilibradas em nossa sociedade. Insisto na máxima: Igualdade é tratar os iguais de forma igual e os diferentes na medida de suas diferenças. Não se pode dizer que a história social dos brancos e dos negros, no Brasil, os equipara em termos de oportunidades. Qualquer pesquisa, em especial o senso do IBGE, traz estatísticas onde se verifica que os negros possuem, em geral, os menores salários, os menores níveis de escolaridade, as menores rendas familiares e trabalham nos piores empregos. Além disso, não ocupam mais do que 10% dos atuais bancos escolares de nível universitário. Apesar desses números, são mais da metade da população. Será que todos estes dados são coincidência? Ou resultado de uma história social de subjugo da etnia negra em nosso país, que precisa definitivamente ser encarada, discutida, aceita e recompensada! Não aceitar a diferença é fechar os olhos para a igualdade.
Neste contexto, para que serve a história, então, se não para, com base nela, corrigirmos o presente e projetarmos um futuro melhor. Quem acha que história não tem utilidade, e que a exploração dos negros e negras deve ficar só na história, está relegado a continuar repetindo os erros históricos ou, no mínimo, a não ter a capacidade de corrigi-los.

Meu principal debatedor respondeu:
Na verdade, temos maneiras diferentes de defender a mesma causa. Eu não acho que a sua resposta seja o caminho certo, mas isso não quer dizer que essa não é a saída. Aliás, nós dois defendemos a conscientização, reparou nisso?



Eu achei que encaminhávamos para o final do debate, e tentei finalizar:
Fica claro que não temos o mesmo entendimento do que seja igualdade social. Sem essa premissa pacificada, fica difícil avançar na discussão. Insisto que para mim, igualdade social não é tratar todos de forma igual, porque todos somos diferentes e, neste caso, a igualdade seria exatamente a aplicação do seu contrário.
Tratar as pessoas com igualdade não é tratá-las da mesma forma. Se tratasse meus dois filhos de forma igual, estaria fadado a errar quase sempre, com pelo menos um deles. Todos nós reconhecemos que tratar uma pessoa portadora de deficiência de forma privilegiada num concurso público, é uma forma de equilibrar a relação e promover a igualdade social. E isso não significa que ela tenha capacidade intelectual menor que os demais concorrentes, mas sim que, no mercado de trabalho, ela sobre preconceito e discriminação por sua condição física (assim como os negros e negras). Portanto, não é com tratamento rigidamente igual que se promove a igualdade. Senão, cada cidadão (seja milionário ou miserável) pagava R$ 100,00 de impostos por ano e estaríamos implementando a igualdade tributária. Se isso é igualdade para alguém, estamos em patamares bem distintos de compreensão deste conceito.

Fui questionado, por outro debatedor, se eu concordaria que meus filhos, que não têm nenhuma responsabilidade com o passado de escravidão no Brasil, cedessem uma vaga conquistada com estudo e esforço, numa universidade pública, para um cidadão negro, por conta da política de cotas raciais, apenas por ele ser negro, e meu filho, branco.
Esperei ansioso por esta pergunta:
Meus filhos, felizmente, (e gostaria que todas as crianças tivessem essa oportunidade) estudam em uma boa escola (privada) e têm condições sociais bastante confortáveis de acumular conhecimento. Se eu tiver que ver minimizadas as chances de meus filhos ingressarem numa universidade pública, de qualidade, para privilegiar aqueles para os quais, historicamente, nunca lhes foram dadas condições de competir em pé de igualdade, então acho que terei cumprido minha função social, como cidadão, e contribuído para a promoção da igualdade. E tenho certeza que darei conta de explicar e convencer meus dois filhos da altivez dessa atitude, para que eles possam se orgulhar disso, também.


Aqui, eu tentei finalizar, pois já estava ficando bem longo, e me dirigi ao conhecido que fez a maioria das intervenções, sempre contestando a política de cotas raciais:
Para finalizar, nós dois defendemos a mesma coisa. A diferença é que indicas um caminho utópico, de pura conscientização, que não resolve a desigualdade a curto ou médio prazo. Eu indico um caminho prático (polêmico, é verdade), mas que tem o objetivo de, aceitando as diferenças, tratá-las como tal.
Respeito tua opinião, mas discordo dela. Felizmente não estou sozinho. A maioria do Conselho Universitário da UFRGS tem também essa opinião, assim com em muitas outras universidades federais. Não acho que aquele conselho, formado por proeminentes professores (doutores nas mais diversas áreas das ciências humanas e exatas), servidores graduados e alunos da universidade, todos democraticamente eleitos pela comunidade acadêmica, esteja pregando deliberadamente o preconceito e a discriminação racial com a proposição das cotas raciais na universidade pública. Não acho que eles estejam, deliberadamente, espalhando a desigualdade em nossos centros acadêmicos de excelência, que são as universidades públicas federais.
Foi muito bom debater de forma franca e respeitosa contigo. Se concordares, acho que podemos deixar nossas duas intervenções de cada lado como um empate técnico entre nós, E como muita colaboração e argumentação para os amigos que nos lêem poderem tirar suas próprias conclusões e seus próprios posicionamentos. Se pudermos ter ajudado alguém a entender melhor esta questão, já terá valido a pena. Um abraço.
E recebi resposta:
Tem meu pleno apoio neste teu último parágrafo.
Apesar de nossas discordâncias, tenho de admitir que seus argumentos são de valor, e em momento algum eu os desrespeito, apenas discordo.
Mas admitamos que o mundo é interessante porque as pessoas tem modos diferentes de ver certas coisas.
Agradeço por vc ter sido paciencioso em responder os tópicos que levantei; em contrapartida, permitiu um salutar debate. E, se me permite dizer, não fechou a cabeça quanto às minhas colocações, permitiu que eu as confrontasse sem desrespeito algum.
Eu tbm prefiro dar por encerrado o debate, já que sabemos que nenhum de nós vai "trocar de lado", mas sempre se aprende algo em encontros desse tipo. Empate técnico completamente aceito.


Finalizei assim:
Teus argumentos também são de valor, e vejo neles a sinceridade de quem tem a intenção concreta viver num mundo menos desigual. E isso, por si só, já é admirável e tem o meu respeito. O modo diferente das pessoas verem as coisas e opinarem sobre soluções para as mazelas do mundo é o que caracteriza a diversidade, que deve ser reconhecida por todos nós, e respeitada acima de tudo. O salutar debate foi fruto de nossa consciência de saber separar as opiniões das pessoas que as emitem. As opiniões e atitudes podem ser contrapostas e contestadas. As pessoas, essas devem ser respeitadas.
Encerrado o debate neste ponto, de minha parte também. Quanto a mudar de opinião, não é um movimento fácil, nem para mim, nem para ti, nem para ninguém, pois passa por admitir algum equívoco de interpretação, o que é sempre penoso. Mas é possível, com o amadurecimento no debate, pois só muda de opinião e admite um equívoco de interpretação quem acumula maturidade e inteligência para isso. E isso é uma construção pessoal.
Espero que nosso debate tenha contribuído para esse acúmulo, nosso e dos leitores deste forum que tiverem a "paciência" de acompanhá-lo.

 Acho que pelo menos, alguém estava acompanhando:
Às vezes, quem tem razão é o que menos importa numa discussão. Li ontem num livro, a achei que cabia aqui: “É melhor uma grande discussão sem nenhuma decisão do que uma grande decisão sem nenhuma discussão!”


Esse debate teve muitos acessos. Permaneceu por mêses no topo do debate Mas alguns debatedores apagaram deliberadamente suas postagens. Acho que não quero saber o porquê.


domingo, 31 de agosto de 2008

A polêmica clássica: Midia e movimentos sociais.

Repassei um artigo do Vito Gianotti sobre uma notícia de O Globo, que atacava uma ocupação do MST a uma fazenda paulista, “contruída em 1830 e que produz café e feijão, e tem atividades pecuárias”, segundo o jornal. A reportagem ouviu o proprietário e seus vizinhos, mas não os mais importantes atores da notícia, os homens e mulheres que provocaram o fato.


Escondeu, no entanto, que a fazenda havia sido declarada improdutiva pelo INCRA e estava em fase final de aprovação, faltando apenas o depósito dos valores devidos ao proprietário. Para apressar essa última etapa, o movimento dos sem-terra executou a ocupação e acampou na fazenda. A forma parcial como a notícia foi publicada, não muito diferente de todas as demais, mostra quais interesses que são defendidos pela mídia diariamente, subvertendo sua missão de bem informar a população com imparcialidade.

O pequeno artigo do Vito:
http://www.piratininga.org.br/novapagina/boletim_show.asp?boletim_num=115

Ao final, fiz uma ponderação: O certo era ter uma imprensa desinteressada (em seu sentido Gramsciniano), prestando um serviço público essencial, o acesso à informação, de forma idônea e imparcial, com controle popular. Ao contrário, temos a totalidade das grandes redes nas mão de algumas famílias da elite nacional, deturpando fatos e manipulando a população a mando das grandes fortunas, para a perpetuação do sistema social em vigor, baseaedo na competição, no individualismo e no lucro, enfim, sem futuro para a felicidade real da humanidade.

Recebi, quase que de imediato, a resposta de um grande amigo de São Paulo, sobre a provocação. Ele escreve de forma nervosa, me chama de uns apelidos “carinhosos” e economiza na pontuação, mas diz o que sente sem papas na língua:
... Agora em relação ao seu e-mail concordo que a globo manipula as informações ao seu bel desejo, mas em questão ao restante eu não concordo com MST, sem teto sem o caralho, nunca ninguém me deu nada nem para mim e nem para meus avos quando vieram como imigrantes para trabalhar na roça, deram para seus avos alguma coisa, agora todo mundo quer terra mas não trabalha nela fica um tempo na terra e vende depois, deveriam receber a terra para produzir sem titulo de posse e sem direito a venda se não quer trabalhar mais na terra devolva para que possa se dar para outra família, sem teto quer casa, o governo constrói subsidia vende a preço de banana o cara paga 30,00 reais por mês, ai ele entra fica um tempinho vende por qualquer 10 mil e volta para a favela, ajuda aluguel morei 12 anos de aluguel e vê se alguém pagou aluguel para mim ou para você, bolsa família, bolsa do cacete e a maioria disso distribuída para quem não precisa, agora 3 dias antes de acabar o ano o nosso presidente assinou a lei por que não foi aprovada no congresso e não podia passar para este ano por que é ano eleitoral, 40,00 reais para adolescente com 16 e 17 anos, porque será será que e porque eles votam, corninho detesto começar falar de política que fico nervoso e minha pressão começa a subir,neste pais só tem corrupto e nunca vi um governo tão corrupto como este que esta agora, um abraço veadinho manda um abraço em casa e vê se aparece, ai vamos sentar eu você o Rodrigo e o Neto e vamos falar do grêmio.


A esse quase ataque cardíaco, típico de um paulistano nervoso de tanto trabalhar e ficar preso em engarrafamento, respondi:
É. Acho melhor falar do grêmio, enquanto esperamos o timão voltar da segundona. Espero que volte como um time de verdade, campeão da segundona (como o grêmio), e não no tapetão ou na quarta posição. Para o timão, nem vice-campeão serve: Se não for campeão, deve pedir pra ficar na segundona e tentar de novo, senão seria humilhante.


Quanto à política, esse assunto não me faz subir a pressão pois tenho claro minhas posições, que são baseadas em estudos profundos da situação política nacional. Se concordas que a globo, o estadão, etc, manipula informações e mentes de seus telespectadores, e reproduzes exatamente o que ela divulga (somente a parte ruim de qualquer atitude social), então concluo o óbvio: Te deixas manipular (conscientemente ou não) pela grande imprensa. Isso pode ser uma escolha, mas em geral a gente não percebe, pois é muito sutil. Eu sempre me pergunto: E o outro lado da notícia, onde está? Quem vai defender a posição contrária? A entrevista é na íntegra, ou foi editada para descolar a informação de seu contexto? Sem questionar a informação, ela é inútil, pois já vem interpretada e mastigada, somente pra gente engolir. Sinceramente, prefiro degustar e mastigar eu mesmo o que eu engulo.

Nenhum governo é bom o suficiente para ninguém, pois é a representação de um povo heterogêneo, a expressão de muitos interesses antagônicos. Agora achar que porque alguns (sim, alguns) sem-terra vendem o lote conseguido e voltam para o acampamento, deslegitima toda uma necessária e inadiável a reforma agrária, não é coerente. Que ninguém precisa de auxílio para nada, baseado na própria realidade (consegui sozinho, então os outros que consigam também) é muito mesquinho, e sei que não és mesquinho. Há uma cultura ao individualismo muito grande em nossa sociedade, e isso precisa ser mudado. Se há alguém se utilizando de benefícios sociais do governo (bolsa-família, Pró-uni, etc), eu fico feliz que tenhamos condições de oferecer mais conforto a quem passa necessidades e oportunidades a parcelas da sociedade que historicamnete não têm acesso à elas, e torço para que sejam corrigidas as distorções que surgem nesse processo (que é o que na verdade te traz indignação. As exceções, e não o projeto em si).

Pouco é divulgado quando esses projetos melhoram a vida das pessoas, quando um negro pobre entra na faculdade e poderá mudar a vida de toda uma família e das próximas gerações. Mas quando um esperto se locupleta do bolsa-família sem ter direito, quando um assentado descumpre as regras e vende seu lote, isso vira notícia a fim de deslegitimar todo um projeto, que é bom e que está mudando a vida de muita gente miserável e sem futuro nesse país. Eu sigo uma máxima: Se não tiver para todos, não terá para ninguém!




A resposta dele, a meu desabafo, foi mais contida. E até surpreendente...
Se você se candidatar voto em você, o cara parece que comeu sopa de letrinha, que você é e sempre foi petista eu sei mas voto em você, um abraço.

Até hoje não sei se ele foi sincero ou me rogou uma praga....