Você sabe como capturar porcos selvagens?
Essa foi a indagação do e-mail que recebi de um primo, e depois de um tio, e depois de um amigo. Coisa ruim corre longe, já dizia minha avó. Era mais uma daquelas fábulas tentando explicar o comportamento humano a partir do comportamento animal. Já se sabe o que esperar, mas essa é interessante. O contexto político tendencioso ficou meio capenga. Mas vou reproduzir na totalidade:
Durante uma aula de um grande colégio, o professor notou um jovem do intercâmbio que continuamente coçava as costas e se esticava como se elas doessem. Ao ser perguntado se estava bem, o aluno respondeu que tinha uma bala alojada nas costas pois tinha sido alvejado enquanto lutava contra os comunistas de seu país nativo que estavam tentando derrubar seu governo e instalar um novo regime, um 'outro mundo possível'. No meio da sua história ele olhou para o professor e fez uma estranha pergunta: O senhor sabe como se capturam porcos selvagens? O professor achou que se tratava de uma piada e esperava uma resposta engraçada. O jovem disse que não era piada, e contou a história:
Você captura porcos selvagens encontrando um lugar adequado na floresta e colocando algum milho no chão. Os porcos vêm todos os dias comer o milho de gratuito. Quando eles se acostumam a vir todos os dias, você coloca uma cerca mas só em um lado do lugar em que eles se acostumaram a vir. Quando eles se acostumam com a cerca, ele voltam a comer o milho e você coloca um outro lado da cerca. Mais uma vez eles se acostumam e voltam a comer. Você continua desse jeito até colocar os quatro lados da cerca em volta deles com uma porta no último lado. Os porcos que já se acostumaram ao milho fácil e às cercas, começam a vir sozinhos pela entrada. Você então fecha a porteira e captura o grupo todo.
Assim, em um segundo, os porcos perdem sua liberdade. Eles ficam correndo dando voltas dentro da cerca, mas já foram pegos. Logo, voltam a comer o milho fácil e gratuito. Eles ficaram tão acostumados a ele que esqueceram como caçar na floresta por si próprios, e por isso aceitam a servidão.
O jovem então disse ao professor que era exatamente isso que ele via acontecer neste país. O governo ficava empurrando-os para o comunismo e o socialismo e espalhando o milho gratuito na forma de programas de auxílio de renda, bolsas isso e aquilo, impostos variados, estatutos de 'proteção', cotas para estes e aqueles, subsídio para todo tipo de coisa, pagamentos para não plantar, programas de 'bem-estar social', medicina e medicamentos 'gratuitos', sempre e sempre novas leis, etc, tudo ao custo da perda contínua das liberdades, migalha a migalha.
A tentativa de vinculação entre os “indesejáveis” programas sociais governamentais e a revolução comunista contra a qual o aluno lutara, ficou bem capenga, mas o objetivo parece ser o de confundir mesmo.
A história parecia falar da perda da liberdade de “caçar”, em nossa sociedade, mas não sei ao certo, pois comparar animais selvagens com seres humanos nem sempre dá um bom texto.
Ao final a mensagem pedia para que “os bons defensores da liberdade” repassassem o e-mail e desejava, mediante ameaça, que aos “maus” que não o fizessem, Deus ajudasse quando finalmente “trancarem a porteira”. Morri de medo.
O contexto político da fábula era ambíguo, pois condenava essa prática de “benefícios sociais” vinculadas ao comunismo e ao socialismo, como se ela não estivesse inserida em todas as sociedades capitalistas da atualidade.
Respondi, aos três, como não poderia deixar de ser:
Caro primo:
Quero contestar veementemente esta mensagem, que nada mais faz do que um terrorismo contra o socialismo, uma ordem político-econômica estudada e propalada por muitos acadêmicos, desde o tempo em que a revolução industrial tornou insustentável a exploração humana pelo capital privado. Não sei o que é pior: O Comunismo pintado pelo reacionarismo, ou o próprio reacionarismo.
Em teoria, o socialismo não prevê bolsa disso ou daquilo, pois o sistema político econômico deve suprir as necessidades básicas da população em saúde, moradia e educação. Bolsa disso e daquilo somente ocorrem em países que adotam o capitalismo, que gera tantas desigualdades que ferramentas como essas são necessárias para manter a ordem social e permitir que a desigualdade seja suportada. Se usadas como ferramenta possibilitadora de ascensão social para seus beneficiados, são absolutamente bem-vindas.
Nenhum país civilizado e hoje estruturado economicamente, como os europeus, o Japão e os EUA, chegou onde chegou sem um forte aporte governamental, sem que o capital estatal fosse usado inteligentemente para alavancar a economia, em algum momento de sua história. Alguns o tem até hoje, como os países nórdicos.
Toda liberdade tem limites, conforme papai e mamãe já ensinavam. Liberdade plena significa desumanidade, falta de limites e desigualdade. Nenhuma democracia no mundo progrediu sem um forte aparato governamental por traz. Como socialista, eu acredito e luto por um outro mundo possível, sem porcos selvagens para se capturar. Fiquei na dúvida se a fábula chamou de porcos ou de selvagens, aqueles que sonham com uma humanidade diferente, onde o lucro não seja a coisa mais importante. Fiquei na dúvida se a fábula chamou porcos ou de selvagens aqueles que acreditam num mundo onde o trabalho garanta o sustento digno e onde as pessoas colaborem em vez de competirem.
Saudações;
Ao tio e ao colegas, que me enviaram depois, encaminhei a resposta acima, com o seguinte texto:
Achei uma falácia. O povo não é nem porco, nem burro. E já mostrou que não está aí para ser dominado, tampouco se considera selvagem. A mim, o texto ofende e não me leva a nenhuma reflexão mais profunda, pois carece totalmente de humanidade.
Afora isso, a atual realidade do capitalismo pode nos levar também à conclusão de que somos apenas porquinhos, no acostumando a trabalhar para consumir, tão somente, sem tempo para viver, ser feliz. Não ouso fazer esse paralelo, pois a sociedade tem mais inteligência do que isso, e cedo ou tarde sempre se dá conta das armadilhas dos sistemas que lhes são impostos.
Somente o colega respondeu, ainda tentando defender os argumentos do da mensagem:
Caro Sérgio:
Concordo contigo que o povo não é porco e nem burro e sim aproveitadores da situação, ninguém faz nada sem que tire proveito de alguma maneira. E não me vem com este papo de socialismo e comunismo, uso é utopia. Mas ainda bem que existem pessoas como nós que acreditamos nos seres humanos e que acreditam no trabalho e no trabalhador e não nos aproveitadores de plantão como: de bolsa família, auxílio desemprego, etc e etc. Continue com a tua utopia que todos os homens são honestos e bom caráter.
Um abraço.
Tive que retrucar mais um pouco, pois acho que não fui muito claro:
Amigo:
Sem minha utopia, esse mundo já não mais me faria sentido. Se não acreditasse no ser humano e na sua preliminar de boa fé, moldada e encapuzada para resistir às opressões do sistema injusto e cruel que o cerca, não poderia acreditar em mais nada, nem em mim mesmo, ser humano que sou.
Atribuo sim os males diários que assistimos ao sistema imposto pelos mais poderosos, ao consumismo, à exploração, e à opressão que os sustenta. E isso tem a ver com sistema político e econômico, que foram teses acadêmicas antes mesmo de serem realidades. Por isso, acredito numa sociedade mais justa e igualitária, no socialismo. Pois o capitalismo de livre mercado também foi tese antes de ser implementado fortemente, após 1980.
Não acredito que algum ser humano se submeteria ao humilhante bolsa família de 120 pilas se tivesse dignidade, trabalho, escola, saúde. É simples assim e o mundo tem dinheiro pra isso, basta dividir melhor e priorizar com base no ser humano, e não no deus mercado. Priorizar a dignidade, e não o lucro. Priorizar a pessoa física, e não a jurídica. Priorizar o entendimento, e não o confronto.
A resposta veio meio sem jeito, mas com filosofia de primeira:
Caro Amorim,
É por isso que te considero um amigo. E como dizia Aristóteles "Precisamos analisar o todo para depois, compreendermos as partes".
Um abraço.
Mesmo depois de tudo, a maldade aflorou em mim. Fiquei pensando se a armadilha dos porcos funcionaria com alpiste e tucanos, mas resisti aos instintos selvagens.
Recebo muitos, muitos emails. Tenho o (talvez mau) hábito de responder à maioria: elogio, critico, comento. Me toma um tempo que alguns dizem posto fora. Pra mim, é quase um vício fazer o contraponto. Opiniões, informações e debates, é o que se verá por aqui.
Quem sou eu
- Sergio Amorim
- Estudante de Sociologia. Servidor Público. Acredito na construção de uma sociedade justa e igualitária, construída pela permanente crítica ao sistema social atual e pela participação popular organizada na vida política.
