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Estudante de Sociologia. Servidor Público. Acredito na construção de uma sociedade justa e igualitária, construída pela permanente crítica ao sistema social atual e pela participação popular organizada na vida política.

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008

Fábula ou mentira?

Essa você já devem ter recebido. Uma fábula simplista atribuída a Ronald Reagan (logo quem?), que conta a história de uma galinha que achou sementes de trigo, e convidou a vaca, o pato, o porco e o bode para plantá-los. Os preguiçosos animais da fábula alegaram de tudo (seguro-desemprego, hora-extra, "não é minha função", e por aí vai...) para não ajudar a galinha, nem a plantar, nem a colher, nem a fazer o pão. A galinha fez tudo sozinha e, quando os pães ficar prontos, todos quiseram comer.



 Ela se negou, e alegou que fez tudo sozinha, mas chegou um “agente do governo”, dizendo que as novas regulamentações diziam que quem trabalha tem que dividir o seu trabalho com que “não faz nada”. E os pães foram divididos, e todos ficaram felizes, mas ninguém entendeu por que a galinha nunca mais fez mais pães.

Uma amiga da adolescência em Canoas-RS, que encontrei no Orkut, mas que nunca mais vi pessoalmente me mandou. Eu sei que foi uma provocação, mas não resisti. Escrevi:
É bom falar (ou escrever) com quem há muito não se fala. A internet mostra-se, quando bem utilizada, uma ferramenta poderosa para aproximar as pessoas.
Com relação ao caráter político da historinha que mandaste, vejo que se acreditas na tese defendida pela "fábula", temos posicionamentos políticos diametralmente opostos.

Eu sou um socialista convicto, acredito que o atual sistema econômico caótico, estressante e de competição individualista quase selvagem em que vivemos, não tem futuro e não trará a felicidade à ninguém, exceto esparsas e isoladas sensações de saciedade material, aqui e ali.

Como toda fábula, é um exagero necessário para explicitar um ponto de vista. Equivocado, na minha opinião. E explico. A historinha é um típico exemplo daquilo que, no estudo da lógica, se convencionou chamar de sofisma, ou falácia. Nesse tipo de raciocínio, é possível construir uma argumentação absolutamente válida, a partir de argumentos falsos. Realmente há pessoas como os bichinhos preguiçosos e individualistas, mas isto não é a regra, e não tem a capacidade de eliminar a idéia da solidariedade, da igualdade e da colaboração. Pelo contrário, é exatamente a exceção social que confirma a regra.

Nos pautar pelas exceções para construir as regras sociais é um erro que nem socialistas, nem capitalistas, arriscam cometer na vida real. Crer que podemos guiar os rumos políticos só pela realidade, e nunca pela utopia, é rumar para o caos, pois o ser humano é naturalmente imperfeito. Mas suas virtudes obviamente superam seus defeitos, ou não teríamos mais condições de viver em sociedade. Assim, guiar-se pelos defeitos, e não pelas virtudes dos cidadãos, é um erro de avaliação que nos levaria de volta à era medieval.

Eu não sei se é má-fé ou ignorância (acredito mais na primeira hipótese), mas a fábula transforma a luta por justiça numa injustiça declarada, fazendo um paradoxo irresistível contra aqueles que na vida real sofrem todo tipo de exploração, exigência e humilhação do mercado de trabalho. A maioria sofre calada, e entende ser a vida "asism mesmo". Mas alguns corajosos assumem sua responsabilidade e lutam por uma relação capital x trabalho mais equilibrada e regrada, com vantagens para os dois lados. E isso, não é coisa para que não gosta de trabalho, pois dá muito trabalho, mesmo. E desgaste também, pois o contraponto em geral é feito da forma como mostrado na fábula, com má-fe e falsidade.

Nem de longe dá pra aproximar, nem a galinha do nosso "mercado de trabalho", tampouco os preguiçosos bichos da fábula dos honestos e dedicados trabalhadores e trabalhadoras do nosso país. Isso seria uma dupla calúnia.
Apesar das divergências, um grande abraço, amiga.


Infelizmente, ela não me respondeu essa, continuou mandando coisas do gênero...



sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008

EU ODEIO RODEIO

O e-mail chegou assim, em forma de um abaixo-assinado contra os maus-tratos sofridos por inocentes animais em rodeios, com várias fotos demonstrando o real sofrimento touros, vacas, bois, novilhos, terneiros Cavalos e potros. Antes, durante e depois do deleite dos espectadores na arena, com aquela carnificina em forma de espetáculo perpetrada por valentes (ou covardes) cowboys tupiniquins.


http://www.odeiorodeio.com/site/

O pedido fala em aberração e crueldade, e as fotos em anexo fazem justiça aos adjetivos. Repassei para meus contatos, como sempre faço com campanhas sérias em defesa dos direitos dos animais. Quaisquer animais. “Não existe rodeio sem crueldade” dizia uma das frases, e isso por si só já seria suficiente para fazer calar os altos lucros desses eventos. Mas não é.


De um colega de faculdade, veio uma indagação:
As atividades de um rodeio são baseadas no dia a dia do homem do campo. Não consigo enxergar qualquer idiotice. Poderia ser mais especifico?


De um colega de trabalho, uma provocação:
E que tal parar de comer carne, também, camarada Sérgio?


Minha resposta foi a mesma, para os dois:
Amigos:
Os rodeios são quase espetáculos circenses, e até nos circos várias cidades brasileiras já proibiram o uso de animais. Mesmo os rodeios já são proibidos em mais de uma dezena de cidades importantes no país de seu nascedouro, Oe estados Unidos. O espetáculo muito pouco ou quase nada tem a ver com as modernas técnicas de manejo de gado para abate, tampouco com a escolha da dieta de cada um.
Já acompanhei atividades de campo, mesmo que de forma superficial. Técnicas atuais, como confinamento, rodízio de pastagens, rastreamento, etc... não requerem as atrocidades que vemos nos rodeios. Até porque se sabe que uma carne de qualidade requer uma criação tranquila, onde o animal engorda com alimentação saudável, livre de stress e é batido da forma menos cruel possível, eliminando a possibilidade de contaminação da carne e derivados por enzimas nocivas à sua qualidade. Vários países só importam carne e derivados com selo de qualidade que ateste esse tipo de manejo. Infelizmente esse tipo de manejo ainda é raro em nosso país, mas existe e precisa ser incentivado. A produção de frangos infelizmente não tem essa característica, e sua criação ainda é o mais estressante sofrida possível. E precisamos avançar nessa questão. Mas voltemos aos rodeios.
As atividades do rodeio reproduzem a exceção dos longínquos tempos das vaqueadas, onde correr atrás de novilhos fujões, domar cavalos a laço (quando não se conheciam técnicas modernas de doma, sem castigo) e marcar gado a fogo (hoje se usam piercings de plástico nas orelhas, praticamente indolores), representam técnicas arcaicas não mais compatíveis com as atividades do "dia a dia do homem no campo". Apertar a virilha de um boi até comprometer seus órgãos internos para ele pular de dor e agradar o público não é uma atividade do "dia a dia do homem do campo". Laçar violentamente (pois corre-se contra o relógio na competição) um novilho de 4 meses de vida pelas pernas ou pescoço, por vezes quebrando inevitalvelmente um ou outro, a ponto de, dominado, o bicho ter que ir direto para o abate, pois não sobreviverá por muito tempo após o golpe, não é uma "atividade do dia a dia do homem do campo".
Com respeito à sua opinião, é interessante considerar que , muito além de "falsa" reprodução da lida do campo, um rodeio não passa de um dispensável e vil sacrifício animal para deleite de seus participantes e arrecadação de dinheiro fácil, dos organizadores e patrocinadores. As arenas gregas com leões e gladiadores, tinha esse mesmo entendimento de “diversão”.
Não vejo sensatez ou sentido em tal aberração.
Sergio Amorim


Um grande amigo, articulador e grande defensor dos direitos dos animais, pediu permissão para repassar minha resposta para sua lista. Acho que ficou boa.